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terça-feira, julho 26, 2022

CULTURA - RECORDAR

“Eles (os museus) existem para guardar, preservar obras de arte, para desenvolver um conhecimento e uma investigação sobre elas. E depois para partilhar esse conhecimento com uma sociedade. Mas hoje invertem-se as coisas e pensa-se que os museus existem para haver público. Há uma lógica de consumo e do mercado que leva a que os museus passem a ser instrumentos de um turismo cultural e de uma industrialização da cultura que está em curso no nosso mundo, facilitada pelas viagens, cada vez mais possíveis. Isto leva a que o público dos museus seja o turista, que muitas vezes está mais interessado em fazer uma selfie e em dizer que esteve no museu do que em ver aquilo que ele exibe ou em confrontar-se com aquilo que ele apresenta.”

João Fernandes, antigo director do Museu de Arte Moderna de Serralves e actual subdirector do Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia de Madrid (Expresso 18/11/2017).


 

segunda-feira, junho 21, 2021

A ARTE NO TEMPO DE D. MANUEL I

Vai abrir ao público na próxima sexta feira uma nova exposição no Museu Nacional de Arte Antiga intitulada “Vi o Reino Renovar – Arte no Tempo de D. Manuel I”.

Esta mostra pretende mostrar que no reinado deste monarca houve um grande apoio às artes, que não dependeu apenas da disponibilidade de meios, mas também do gosto do rei e da necessidade da afirmação do país no panorama europeu.

Esta exposição, que se espera venha a ser um sucesso, vem na senda de outra grande exposição “Joanni V Magnifico”, outro monarca português que também apoiou as artes e os artistas, também com os meios e a mesma necessidade de afirmação do país.

Nem todos querem ver esta vertente destes dois monarcas, talvez por terem sido reis absolutos, e também por terem reinado em tempos de abundância originada em territórios sob seu domínio.

A História, muitas vezes desconhecida, dos reinados de D. Manuel e de D. João V, mostra outras facetas que os detractores preferem ignorar, mas que são fascinantes e, parte da sua obra permanece sendo em muitos casos considerada como tesouro nacional.


 

segunda-feira, setembro 21, 2020

MUSEUS E A FALTA DE TRABALHADORES

O problema da falta de pessoal nos museus, monumentos e palácios dependentes do Ministério da Cultura é crónica há pelo menos duas décadas.

A degradação dos serviços é notória, o fecho de salas e o afrouxamento da vigilância são realidades que o público mais atento já constatou.

Já há bastantes anos os museus deixaram de ter pessoal operário para as limpezas, recorrendo-se a empresas externas, e como se sabe os concursos são ganhos por quem oferecer preços mais baixos, o que se reflecte naturalmente na qualidade de serviço. Na vigilância os concursos têm sido muito poucos, e o recurso à mobilidade também se revelou um falhanço pois apenas serviu de ponte para a ida para outros serviços com horários melhores e outras possibilidades de progressão.

A escassez de pessoal é problemática, mas os problemas não se esgotam por aí. O nível etário é altíssimo, com todos os inconvenientes daí decorrentes. A formação profissional é uma miragem e em muitos serviços nem sequer é dada a conhecer aos vigilantes.

Podia falar da escassez de verbas e de autonomia, que serve a muitos dirigentes para disfarçar a mediocridade do seu desempenho, tanto na organização do trabalho como na investigação e divulgação do espólio dos serviços. As excepções são conhecidas, quer pelas reivindicações apresentadas, muitas públicas, quer pela actividade que os visitantes podem aferir nas suas visitas.

Esta degradação dos serviços é da responsabilidade da tutela, e não se resolve só com novas admissões (que são indispensáveis), mas também com a valorização da categoria dos assistentes técnicos com funções de vigilância, muito justa pela disponibilidade para trabalho em horários que compreendem sábados, domingos e feriados.


 

domingo, julho 05, 2020

APRESSADOS


Lembro-me bem de ter criticado a abertura prematura dos nossos museus, monumentos e palácios no dia 18 de Maio, Dia Internacional dos Museus, precisamente por causa da data em si mesma, e não por qualquer razão objectiva atendendo à situação que se vivia.

Depois disso também me lembro de ter mencionado a abertura dos museus em Espanha, em França e no Reino Unido, e de ter salientado os cuidados tidos nesses países, especialmente devidos à segurança dos visitantes e dos funcionários dos serviços.

A receptividade em Portugal não foi a melhor, fui mesmo criticado por alguns devido à minha opinião, de que tínhamos aberto os museus muito cedo e sem estarem reunidas todas as condições, mas é sempre um risco que temos de correr quando emitimos uma opinião.

Hoje enfrentamos uma situação, e não é apenas no âmbito dos museus, palácios e monumentos, mas no país na sua totalidade, em que não merecemos a confiança da maioria dos países cujos cidadãos nos costumam visitar, de desconfiança exactamente por ter-mos desconfinado demasiadamente cedo.

Nenhum país esteve verdadeiramente preocupado com a data de 18 de Maio e do Dia Internacional dos Museus, e nós estamos a pagar uma pesada factura pela mania de de ser sempre o melhor aluno. 


domingo, maio 17, 2020

CULTURA E MITOS URBANOS


Existem muitos mitos urbanos que envolvem a História e o Património, mas é bem verdade que as pessoas gostam, e fixam melhor estes mitos do que a verdade histórica comprovada.


Durante as várias décadas de trabalho no Património aprendi um a coisa, que foi nunca me esforçar demasiado em desmistificar os mitos, embora sempre os tenha classificado como mitos ou lendas quando a eles me refiro.


No Mosteiro da Batalha ouve-se a lenda da abóbada da Sala do Capítulo e do mestre Afonso Domingues, e eu acho que é uma ume narrativa deliciosa, um pouco nacionalista, mas que trás um certo misticismo ao monumento. Quem desejar aprofundar mais o seu conhecimento, pois então que o faça, mas não desfaça o imaginário dos outros.


No Palácio da Vila de Sintra temos a Lenda das Pegas, talvez um pouco machista mas por isso mesmo interessante, ou as divagações sobre o Quarto Prisão de D. Afonso VI, seja pelas razões da sua desgraça, do desgaste do solo do seu cárcere, ou até dos sinais que trocaria com o conde de Castelo Melhor, que compõem uma narrativa melodramática. E o que dizer da hipotética leitura dos Lusíadas ao rei D. Sebastião pelo próprio Luís de Camões, no Pátio da Audiência, potenciado pelo filme de Leitão de Barros?


Também podemos ir para Mafra onde temos as ratazanas dos subterrâneos, e os exércitos de morcegos que tratam da conservação dos livros, que fazem a delícia de quem ouve estas narrativas.


Claro que as lendas e as narrativas fantasiosas apimentam o imaginário de muita gente, mas devem sempre ser antecedidas do aviso correspondente, porque nunca se sabe a quem as contamos…


terça-feira, outubro 15, 2019

CULTURA À ESPERA DE MUDANÇA


Segundo vimos nas notícias o Ministério da Cultura fica entregue à ministra que lá esteve nos últimos anos da última legislatura, que foi de muito má memória para a área do Património.


Nos últimos anos o investimento nos museus, palácios e monumentos tem sido quase nulo, e a falta de recursos humanos tem-se agravado, apesar de todas as promessas.


A vida nos museus, palácios e monumentos tem sido muito difícil, sendo frequentes as dificuldades em coisas tão simples como a substituição de lâmpadas, arranjo de fechaduras, substituição de vidros, reparação de infiltrações, ou arranjo de instalações sanitárias. Mudando para as dificuldades relativas a recursos humanos temos a carência de pessoal de vigilância, pois não se conseguem atrair funcionários para desempenhar a tarefa (mal paga e com horários especiais), onde vão resistindo apenas funcionários com idades avançadas, boa parte já sexagenários.


Será que podemos antever alguma melhoria para a nova legislatura? Não sei, mas não estou optimista.