sábado, novembro 10, 2007

DIZ-ME COMO TE VESTES…

No telejornal da RTP de ontem, falou-se do preconceito nacional em relação ao uso da gravata. Pode parecer disparatado, ou pelo menos um problema menor, mas isto está associado a muitas outras “manias” que influenciam decisões mais ou menos importantes da vida diária de todos nós.
Comigo, recente, aconteceu-me um caso caricato numa grande empresa nacional. Durante várias semanas troquei inúmeros telefonemas de trabalho com um dos proprietários, sempre feitos através de uma senhora, que sistematicamente me ligava e também me atendia quando eu fazia a chamada para o gabinete do patrão. A senhora foi sempre extremamente simpática nos contactos, cordial até, quando tinha de aguardar um pouco para ser atendido, e fez sempre questão de me tratar pelo nome e apelido.
Um dado dia, terminado o trabalho que me fora encomendado pela dita empresa, dirigi-me à sua sede de mota, acompanhado por um jovem assistente e dirigi-me à recepção, onde pedi para fazerem o favor de anunciar a minha presença ao senhor X (o patrão da empresa). A senhora da recepção olhou-me da cabeça aos pés, e mirou pelo canto do olho o meu assistente e fez uma chamada em voz baixa. Poucos segundos depois, virando-se para o assistente diz-lhe num tom de voz mavioso que o patrão o aguarda na porta ao fundo do corredor e levanta-se para o acompanhar até lá. Confesso que não estranhei, e comecei a caminhar na mesma direcção, e aí acontece o inesperado. A senhora vira-se para mim e com uma voz cortante, pergunta-me: quem á que lhe disse para sair daí? O senhor X não recebe qualquer um, muito menos um motoqueiro, já com idade para ter juízo. Eu só chamei este senhor.
Fartei-me rir e fiz um gesto para indicar ao meu assistente que devia acompanhar a senhora e entrar, porque me apercebi do juízo errado da senhora, e também dos motivos. Eu vinha com um blusão de cabedal e sem gravata, e o jovem que me acompanhava, ía de fato e gravata. Passados poucos momentos o senhor X sai do gabinete e vem direito a mim, desdobrando-se em desculpas pelo equívoco, e a senhora enceta uma saída pela esquerda baixa para a sua secretária. A reunião correu a contento das partes sem incidentes de qualquer espécie.
À saída, a pobre senhora fez questão de me pedir desculpas, e rematou esse pedido com um outro: como é que o senhor quer que eu o passe a tratar, por engenheiro, ou arquitecto? A resposta inevitável foi a de dizer que fizesse como sempre o tinha feito nos contactos anteriores, que era o modo como todos me tratam, e eu gosto.
O hábito faz o monge, diz o ditado popular, mas a sociedade evolui, os costumes adaptam-se às realidades e nem sempre o que parece, é!

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Fotografia
weresk
Wildhoney

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Humor Internacional

Steve Sack

M. e. Cohen

R.J. Matson

10 comentários:

Sílvia disse...

Um burro carregado de livros pode parecer um doutor e um homem de fato de gravata de marca é logo "inginheiro". Isto faz parte da imaginário saloio que ainda grassa por estas bandas.
Bjos

quintarantino disse...

Conheço muita alimária que usa gravata da Hermés... cá por mim, tanto ando de gravata e fato, como de calças de ganga e camisa com fralda de fora... é conforme me apetecer... e não me caiu até hoje o estatuto... mas lá que o amigo tem razão, tem... já me aconteceram algumas do género...

J. P.G. disse...

Assim te vestes... assim és!
O provincianismo atávico da sociedade lusa ainda há-de continuar por gerações...

Cumps.

Maria Faia disse...

Estimado Amigo,

Com que então, motoqueirp?!!!!
E esta hem?!
Que bom ser chamado assim....
Já tenho saudades dos meus tempos de apaixonada da Mini Honda.
Outros tempos, outros caminhos..

Um abraço amigo e votos de Bom Fim de Semana,

Maria Faia

AnarKa disse...

Para a próxima vez vai de lacinho, mesmo que de cuecas, vais ver que fazes furor.
Lol

Tiago R Cardoso disse...

Muito bom, excelente.

Sul disse...

...pois, é complicado. Os costumes ainda são tradição. ;-)


Abraço

Cláudia Ribeiro disse...

Como se usar fato e gravata fizesse de um 'zé-ninguém' uma 'pessoa qualificada'.
Esse tipo de preconceito é natural numa sociedade entandardizada como a nossa. Infelizmente :/

Maria, Flor de Lotus disse...

Caro amigo Guardião , outro post de grande qualidade e interesse. Convida de facto à reflexão.
Se me permitir, divido consigo uma experiência que eu própria tive: numa certa época da minha vida quis estudar um pouco o comportamento humano na perspectiva relacional . Falaram-se de um curso bi-anual patrocinado pela F C Gulbenkian que me pareceu ir pelo menos em parte ao encontro do pretendido. Lá me inscrevi e lá o fiz. Entre as disciplinas curriculares recordo que uma versava precisamente este tipo de situação e similares , ou seja , o efeito da impressão da imagem na formação do primeiro conceito, mais os efeitos chamados " da informação prévia", os pré -juízos condicionados, etc.
Parece demonstrado cientificamente que dificilmente se corrige o efeito deixado por nós em alguém, pela nossa primeira imagem.
Mas o mais curioso é como depois se coloca o preconceito humano à ordem da ciência , para através dele obter determinados efeitos a nível empresarial e relacional em geral.
Assim, o "vestir" de uma personagem pode ser propositadamente utilizado para criar uma imagem de segurança, de sucesso , ou outras ...
É portanto um tema muitíssimo interessante o trazido por si aqui.
Depois,
Fiquei cheia de vontade de experimentar a sua moto.
Teria o amigo que me conduzir ou o desastre seria total ...
:)
Um beijinho e parabéns pelo excelente post.
Maria

ANTONIO DELGADO disse...

CAro Guardião,

dessa histórias tenho uma serie delas e na zona de Leira que é o meu distrito uma serie delas. Infelizmente o exterior marca muito, na lusitanilandia, as nossas relações com terceiros e a forma como nos recriam.

Um abraço
Antonio Delgado

Ps. Gostei muito da musica.