sábado, fevereiro 22, 2014
SONHO
atormentado e sozinho
se os sonhos me não viessem
mostrar qual é o caminho
umas vezes são de noite
outras em pleno de sol
com relâmpagos saltados
ou vagar de caracol
quem os manda não sei eu
se o nada que é tudo à vida
ou se eu os finjo a mim mesmo
para ser sem que decida.
Agostinho da Silva
domingo, março 10, 2013
DO SONHO AO PESADELO
segunda-feira, fevereiro 20, 2012
SONHO
O Cortejo Ingénuo dos Nossos Sonhos
Não desenhamos uma imagem ilusória de nós próprios, mas inúmeras imagens, das quais muitas são apenas esboços, e que o espírito repele com embaraço, mesmo quando porventura haja colaborado, ele próprio, na sua formação. Qualquer livro, qualquer conversa podem fazê-las surgir; renovadas por cada paixão nova, mudam com os nossos mais recentes prazeres e os nossos últimos desgostos. São, contudo, bastante fortes para deixarem, em nós, lembranças secretas que crescem até formarem um dos elementos mais importantes da nossa vida: a consciência que temos de nós mesmos tão velada, tão oposta a toda a razão, que o próprio esforço do espírito para a captar a faz anular-se.
Nada de definido, nem que nos permita definir-nos; uma espécie de potência latente... como se houvesse apenas faltado a ocasião para cumprirmos no mundo real os gestos dos nossos sonhos, conservamos a impressão confusa, não de os ter realizado, mas de termos sido capazes de os realizar. Sentimos esta potência em nós como o atleta conhece a sua força sem pensar nela. Actores miseráveis que já não querem deixar os seus papéis gloriosos, somos, para nós mesmos, seres nos quais dorme, amalgamado, o cortejo ingénuo das possibilidades das nossas acções e dos nossos sonhos.
André Malraux, in 'A Tentação do Ocidente'
quarta-feira, maio 19, 2010
À MESA COM A CULTURA
Já era pública a ideia da ministra da Cultura, Gabriela Canavilhas, de tornar gratuitas as entradas nos museus do Estado, mas vir falar do assunto no Dia Internacional dos Museus num ano em que os portugueses são chamados a pagar mais impostos, devido ao endividamento excessivo, é no mínimo imprudente.
O jornal Público colocou em título, a seguinte pergunta: “E se os museus do Estado tivessem entrada gratuita?”. A resposta é fácil e evidente – teríamos que os sustentar apenas com os nossos impostos.
A senhora ministra pode sonhar à vontade com gratuitidades, mas primeiro talvez seja conveniente explicar aos portugueses as razões do mau estado de conservação em que se encontra grande parte do nosso Património, e porque razão ainda há falta de pessoal nos nossos museus, especialmente nas funções mais mal pagas, de guardaria e vigilância.
As receitas dos nossos museus e monumentos, sob tutela do Ministério da Cultura, são significativas e cobrem boa parte dos gastos de funcionamento dos serviços, não se vislumbra que seja de outro modo. Percebo que alguns responsáveis de museus com entradas gratuitas e com financiamento do Estado defendam a ideia, mas então digam claramente qual a forma de financiamento que defendem e logo se verá se os portugueses estão dispostos a fazer mais esse esforço.
Curiosidade
A frase mais interessante da notícia referida é:”Vivemos numa sociedade cada vez mais grátis e há uma geração Web que não tem uma cultura de pagar”. Fiquei com vontade de retorquir com uma frase, esta da autoria de um comentador da nossa praça: “Não há almoços grátis”.
segunda-feira, setembro 24, 2007
I HAVE A DREAM
Já tenho falado da falta de atenção que é dada à Cultura em Portugal, mas as últimas notícias vieram demonstrar como estava redondamente enganado. O Guardião, afinal não é o detentor da verdade (nem nunca de tal se intitulou) e, portanto venho aqui pedir desculpa pelo engano cometido, e proceder à reposição da verdade.Não venho falar da senhora ministra da Cultura, que é uma perita em literatura, não em inaugurações e outros tipos de festa, viagens ou croquetes, como pode transparecer de alguns comentários humorísticos aqui produzidos. Também não venho falar do senhor ministro dos Assuntos Parlamentares, que alguns sugerem ser o verdadeiro ministro da Cultura, pois é evidente que tem outras coisas mais importantes para tratar.
Hoje venho falar do senhor ministro da Cultura, perdão, da Economia, que veio anunciar um projecto de requalificação da Fortaleza de Sagres, o monumento mais significativo da saga heróica dos Descobrimentos. O anúncio da construção de um museu interactivo sobre os Descobrimentos portugueses por Sua Exª o Ministro Manuel Pinho, ministro da Economia e da Inovação.
Na ocasião, e perante os jornalistas, revelou M. Pinho que este é um sonho seu, que lhe permitirá “daqui a uns anos, quando já não for ministro da Economia, dizer aos meus (seus) netos que o turismo mudou”. Esta frase absolutamente original e o conteúdo deste seu anúncio, são uma demonstração dos dotes oratórios e da vasta Cultura do senhor ministro.







