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quinta-feira, novembro 05, 2015

AS FERIDAS DO RETORNO



Acho bem que se comece a falar abertamente do que aconteceu a muitas centenas de milhar de pessoas, obrigadas a voltar ao seu país de origem, ao dos seus ancestrais, ou mesmo aos que fugiram de países a que chamavam a sua terra, para vir para o pais que tinham jurado defender, mesmo noutras paragens.

Começando pela palavra “retornado”, que teve sempre uma carga negativa pela parte de quem a proferia, até à revolta legítima de quem se viu espoliado de todos os seus pertences, obtidos por meios legítimos, até à humilhação a que foram sujeitos antes de partirem de África, e sobretudo depois quando chegaram àquele que pensaram ser o seu porto seguro. Não é difícil perceber o silêncio a que se remeteram, enterrando a sua raiva, o seu desânimo e a sua esperança, para ultrapassar a provação com a maior brevidade.

Há quem pense que houve medo de parte de quem “retornou” de falar desse passado em África, ou até dos primeiros tempos aqui onde encontraram um porto pouco receptivo. Talvez fosse de meditar nas perguntas que eles podiam fazer e que não fazem porque são desnecessárias, como:

-Porque não foram cumpridas muitas promessas feitas antes da entrega dos territórios?
- Porque é que Portugal não indemnizou quem viu nacionalizados ou confiscados os seus bens?

Outras perguntas mais incómodas podiam dizer respeito ao ouro que o Estado português retirou dos bancos em África antes das independências, ou porque se silenciaram massacres de portugueses, e não só, imediatamente antes das grandes vagas de refugiados.

O passado não volta e as feridas sararam mais depressa do que as dos povos aos quais foram dadas as independências, e isso é talvez o maior legado que os “retornados” deram à nação que tão mal os tratou. Vidas destroçadas e muita gente amargurada, conseguiram construir novas vidas, muitas vezes novas famílias, e meia dúzia de anos depois, ninguém falava já de “retornados” nem de “colonos”.



domingo, janeiro 18, 2015

HOJE VOU SER POLITICAMENTE INCORRECTO



Nestes últimos dias li uma notícia cujo título me chamou a atenção, e o quanto ao texto que se seguia, revelava a dificuldade de entender a mistura de sentimentos que atravessa a cabeça de muitas pessoas que tiveram que deixar as chamadas colónias nos anos 70 do século passado.

Começando pelo título “ para a maioria dos colonos, a possibilidade de abandonar África era nula”, diria que o termo “colonos” é uma simplificação que pode distorcer a compreensão do que se quer perceber.

Talvez fosse importante perguntar aos alvos do estudo se alguma vez se sentiram como colonos, ou se pelo contrário sentiam aquelas terras como as suas terras. Talvez tivessem uma surpresa, pois ignoraram desde o princípio que muitos dos que fugiram para Portugal, eram já naturais daquelas terras, ou nelas tinham as suas vidas há décadas.

Quanto aos traumas e à integração dos que fugiram daqueles territórios africanos, é verdade que existem alguns traumas, outros fugiram deles concentrando-se em refazer as vidas, colocando uma pedra sobre o passado, ainda que nunca tenham conseguido esquecer os territórios que amavam.