Temos ouvido da boca de diversos dos comentadores ligados ao poder e dos partidos do governo, e por diversas vezes, que O Estado tem muitas “gorduras”, e que é preciso cortar nos funcionários públicos porque o patrão Estado gasta mais do que pode.
Convém recordar que o défice do Estado quando Cavaco Silva foi para o governo era duma dimensão muito inferior à actual e que começou a aumentar ao mesmo tempo que entravam os dinheiros da então CEE.
Começando a partir dessa época podemos ver que todo o dinheiro era encaminhado para a chamada política do betão e do asfalto, cujos beneficiários eram as empresas privadas de construção civil. A construção cresceu, vendiam-se casas, lucravam os bancos e o país começava a endividar-se beneficiando as empresas destes sectores.
Acabou-se com a agricultura e com as pescas, e os grandes proprietários com terras e com embarcações, privados bem se sabe, amealharam os dinheiros vindos de Bruxelas. Tudo continuou de velas enfunadas até que os dinheiros da Europa começaram a diminuir, mas não se podia parar a maré.
Com a diminuição da contribuição europeia, vieram os grandes projectos e grandes empréstimos fitos no exterior, e lá surgiram mais estradas, estádios de futebol e uma Expo que foi o orgulho nacional, só que ninguém dizia que o país estava a ficar mais endividado.
Quando começaram a surgir umas luzinhas de alarme, começou a dizer-se que era preciso privatizar em força, e mais uma vez se começaram a entregar fatias das grandes empresas do Estado a privados, porque havia compromissos a pagar. Tudo o que era lucrativo começou a ser alienado, mas não se disse que as receitas dessas empresas estavam a ser retiradas ao Estado e que isso iria implicar a subida dos impostos a curto prazo.
O bodo continuou com as PPP, onde o Estado garantia o lucro dos privados por 30, 40 ou mais anos e ainda ficava como avalista dos empréstimos internacionais. No caso das Scut a vergonha ainda foi maior, porque havia uma comparticipação europeia destinada a beneficiar a comunidade e afinal passaram a ser pagas pelos utilizadores e o Estado ainda ficou obrigado a garantir rendas chorudas aos concessionários.
Tudo isto aconteceu sem que os comentadores ligados ao poder e os partidos que passaram pelos diversos governos viessem dizer que o Estado se estava a endividar e a entregar tudo o que era lucrativo para benefício de privados. Agora dizem todos que foi o Estado que se endividou e que gasta mais do pode, sem nunca aludir quem teve responsabilidades ou quem beneficiou durante todos estes anos em que o endividamento foi aumentando.
Finalizo dizendo que, a menos que os juros da nossa dívida passem para taxas perto de 1%, Portugal nunca terá capacidade para pagar a sua dívida actual, porque seria preciso haver um crescimento muito alto para se conseguirem pagar os juros e amortizar a dívida. Os comentadores e políticos da área governamental sabem isso, mas não o dizem porque é uma verdade inconveniente.