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terça-feira, novembro 16, 2021

POBRE ANA BOLENA

Ana Bolena foi sem qualquer dúvida a mais famosa esposa de Henrique VIII. Apesar de não ser considerada uma portadora duma beleza ideal, por ser morena, ela teria uma estatura média, elegante, rosto bonito e olhos negros.

O seu maior “crime” talvez tenha sido o de não ter dado um filho varão ao rei, mas apenas uma filha, de cabelos ruivos, Elizabeth. Diz-se que terá sido a sua língua afiada e as suas birras que terão afastado o rei do seu leito, buscando consolo no de outras mulheres.

Henrique VIII conseguiu que a esposa fosse julgada e condenada em tribunal por adultério, traição e incesto, sendo decapitada dois dias depois, não sem antes pedir aos espectadores da execução, que “julgassem o melhor”.

As acusações feitas contra Ana Bolena, posteriormente, como a de feitiçaria, ou mesmo algumas lendas criadas em torno dela como a de ter seis dedos numa das mãos, de ter uma marca no pescoço (marca demoníaca), ou de ter 3 seios, e de ser uma bruxa, foram alimentadas pelos católicos, por conveniência evidente.

Nicholas Sanders escreveu muita coisa falsa, especialmente de características físicas, sobre Ana Bolena, mas provavelmente nunca a conheceu pessoalmente para o poder afirmar. Em 1876 o seu esqueleto foi descoberto e nenhuma das deformidades descritas por Sanders foram encontradas, mas sim um esqueleto absolutamente normal.

Ana Bolena acabou por ser uma vítima de Henrique VIII, e da tradição de que apenas um homem poderia ter uma nação unida e segura contra os inimigos.

Nos nossos dias há quem diga que o único retrato que se conhece de Ana Bolena, não a representa a ela, o que é possível pois o rei mandou destruir todos, e nem lhe encomendou um caixão ou colocou uma pedra na sua sepultura. Há até quem tenha decidido colocar uma actriz negra a interpretar essa rainha de Inglaterra, o que deturpa totalmente a História.

Pobre Ana Bole que em vida não teve sorte, e que mesmo depois da morte não deixam em paz.

 

Ana Bolena e a actriz Jodie Turner-Smith

 

sábado, outubro 09, 2021

DEBATER SÓ O QUE ESTÁ NA BERRA

Tem estado na “berra” a discussão da nossa História, das navegações protagonizadas pelos portugueses e de tudo o que aconteceu até ao 25 de Abril de 1974.

É consensual que o História que aprendemos na escola foi sempre influenciada pelo poder político, que aumentou e glorificou o que quis, e demonizou aquilo que de algum modo podia afrontar a narrativa e a linha política que se pretendia impor. Isso foi e ainda é verdade, mas é sempre mais fácil e cómodo falar do passado.

Hoje tive a oportunidade de ler um extenso artigo sobre “O desconforto com as pinturas da sala de visitas da Assembleia”, no jornal Público, e senti que os pruridos da deputada Joacine estão um pouco deslocados, pois centraliza tudo em atacar gerações de portugueses que desde o século XII foram construindo e dirigindo uma nação, vivendo de acordo com os usos e costumes do mundo em que se inseriam, com defeitos e virtudes que são um apanágio do ser humano, só porque a deputada pretende fazer um julgamento dos seus actos à luz dos tempos em que vivemos.

Não sou contra que se coloquem legendas naquelas pinturas, o que aliás se devia fazer com todas as obras de arte, mas continuo a achar que é redutor levantar esse problema apenas para as obras de algum modo ligadas às descobertas e ao tempo da ditadura, como se só sobre essas pudessem existir coisas que devíamos dar a conhecer a todos.

Como agnóstico que sou, confesso que nunca me passou pela cabeça vir exigir ao Estado português que as pinturas e outras obras de arte de cariz religioso viessem a ser obrigadas a colocar legendas em tudo, de modo a ficar claro como a religião católica se comportou desde o início da sua constituição. Talvez pudessem contar as barbaridades praticadas desde Constantino, passando pela expansão marítima, pela Inquisição, e indo até aos casos de pedofilia dos nossos tempos.

A senhora deputada desconhece que na História há sempre duas visões sobre os acontecimentos em que houve confrontos entre povos, a dos vencedores e a dos vencidos, e não se pode impor a todos que tenham a mesma visão, porque certamente uns conseguiram algo que queriam e outros não, pelo menos nessa ocasião.

Para mim fica a ideia de que a deputada é portuguesa de nacionalidade mas continua agarrada ao passado e não consegue livrar-se dele, e quanto a isso nada se poderá fazer, porque é o futuro que queremos melhor, não o passado, que esse é imutável.

 

Francisco Rizi retratando um auto de fé na Plaza Mayor, Madrid, em 1680

Execução da poetisa protestante Anne Askew em 1546, em Londres, após tortura no potro.



 

quarta-feira, abril 28, 2021

O DISCURSO DE MARCELO

Não aprecio Marcelo, enquanto político, respeito-o q.b. enquanto detentor do cargo que ocupa, apesar da imensidão de coisas em que discordamos completamente, mas o seu recente discurso no 25 de Abril foi certeiro e devia dar que pensar a muita gente que se acantona nas suas posições extremadas.

Há quem se recuse a aceitar que “não se pode olhar para a realidade do passado com os olhos de hoje”, que é um princípio salutar para quem quer ter uma visão histórica mais isenta e fundamentada. Curiosamente são estes mesmos que logo em seguida suportam as suas opiniões em factos históricos para suportar ideias de que fomos isto e aquilo e tão ou piores do que os outros.

Só num mesmo jornal pude ler dois artigos de opinião sobre o discurso de Marcelo em que os autores dizem que é impossível seguir a ideia expressa do Presidente, por este ou aquele motivo.

O passado de Portugal teve muitos aspectos mais ou menos discutíveis, ou mesmo censuráveis aos olhos dos nossos dias, que qualquer cidadão pode verificar estudando um pouco a nossa quase milenar História enquanto nação. Claro que a memória é curta (ou o conhecimento) e os factos mais recentes são os que mais atraem os que preferem autoflagelar-se com o que se passou nos últimos tempos (que a maior parte deles nunca vivenciou).

Falar dos problemas do colonialismo, e das condições de vida dos nativos, bem como dos horrores da guerra, desconhecendo que a independência dos territórios era um desejo de todos, independentemente da cor da pele, desprezar as condições de vida no Continente de boa parte dos portugueses, e os actos de terrorismo que iam sendo praticados, é fugir à verdade.

Falar da escravatura, do trabalho forçado e omitir o que se avançou nesse campo durante a década de 60 e inícios da década de 70, bem como o desenvolvimento daqueles territórios onde a modernidade e as condições de vida eram tão boas ou melhores das que se viviam aqui, e com os mesmos defeitos e fraquezas que cá existiam, o que não é alheio ao regime que vigorava, que era o mesmo.

Os nossos bairros da lata mostravam pessoas que estavam excluídas do progresso, da dignidade humana, e do ensino que as poderia fazer sair da miséria. O que se passava em África passava-se por cá, e a taxa de analfabetismo era mais ou menos igual. A exploração que lá existia era a mesma que existia por cá.

Se houver o cuidado de fazer um escrutínio sério, de se ponderar bem quais os pontos de partida e o que existia nas últimas duas décadas do fascismo, por cá e nas ditas colónias (Províncias Ultramarinas), talvez cheguemos a uma conclusão bastante diferente da que se pretende fazer passar com os discursos miserabilistas que têm sido quase uma constante. 

 

Fotos de Fernando Mariano Cardeira - anos 60 Lisboa



 

segunda-feira, março 08, 2021

EPISÓDIO DA VIDA DE D. JOÃO I

"Durante o cerco de Villalobos faltou certo dia a erva no acampamento e, como se tivesse espalhado infundadamente o boato de que a povoação se renderia no dia seguinte, vários dos do Mestre (de Avis) foram apanhar quanta erva encontraram nas proximidades. Quando o soube, o Mestre ficou irritadíssimo porque supunha, não sem razão, que os cercados, sabendo-o em dificuldades para alimentar o gado, se não rendessem tão depressa. Os factos desmentiram esta suposição, visto a povoação se ter rendido poucos dias depois, mas ela não deixava de ser até certo ponto lógica. O Mestre, irado, sem atender a que a culpa fora impensada, e olhando só às consequências dela, que supunha péssimas, ordenou que prendessem os culpados e que lhos trouxessem. Apresentaram-lhe seis rapazes: sem hesitação, mandou que os degolassem.

Debalde, as lágrimas a bailarem-lhe nas pálpebras, o Condestável busca movê-lo à piedade; debalde, tacticamente invocando os seus serviços, um Escudeiro, que sempre o acompanhara e servira bem, lhe pede misericórdia para um dos condenados, seu irmão; mas o Mestre, frio, impassível, inabalável, não cede. A sentença é executada."

Este episódio contado por Damião Peres, sobre D. João I, o Mestre de Avis, mostra como certos actos numa época podem ser considerados dum modo, e noutra época se tenha um entendimento muito diferente sobre os mesmos.

Naquela época e numa situação de guerra, qualquer acto irreflectido, mas que eventualmente colocasse em perigo um exército, merecia a maior das punições, o que de certo modo, se manteve talvez com um pouco menos de severidade em alguns exércitos, até ao final da II Guerra Mundial, hoje não seria admitido.


 

terça-feira, setembro 29, 2020

A MINHA LEITURA ACTUAL

Esta é a obra que comecei ontem a ler, porque é sobre um personagem da nossa História que é louvado por muitos, mas é igualmente detestado por outros. A sua vida tem tido leituras controversas e já foram muitos os que sobre ele escreveram e nem sempre os seus livros foram coincidentes nos factos mais discutíveis da sua vida.
 
É lógico que tenho em atenção o que outros autores escreveram sobre Sebastião de Carvalho e Melo, e foram muitos, mas tive que ir buscar material de Voltaire que não fazia parte das minhas prateleiras.
 
Recordei-me duma passagem sobre Portugal no Resumo, no capítulo 31, «Os novos males da Europa parecem ter sido anunciados por tremores de terra que se fizeram sentir em muitas províncias, mas de forma mais terrível em Lisboa que em outras partes. Um terço da cidade desabou sobre os habitantes; quase trinta mil homens pereceram… Esse flagelo deveria fazer os homens meditarem e perceber que, de facto, não passam de vítimas da morte, que deviam ao menos consolar-se una aos outros. Os portugueses acreditaram obter a clemência de Deus, fazendo queimar judeus e outros homens no que denominavam um “auto-de-fé”, acto que outras nações consideravam um acto de barbárie; mas exactamente a partir dessa época adoptaram-se medidas em outras partes da Europa para ensanguentar esta terra que desmoronava sob nossos pés».  
 
Voltaire relatou factos inverídicos, apesar do seu interesse verídico na catástrofe e na personalidade do Marquês, e esta citação é apenas um dos exemplos.
 
No final, e depois de digerir esta leitura, talvez venha aqui deixar o meu testemunho.