domingo, dezembro 04, 2011

DA ÍNDOLE DOS HOMENS

A índole é, muitas vezes, ocultada; outras, subjugada; quase nunca extinta. A força faz a índole mais violenta, em represália; a doutrina e o discurso tornam-na menos importuna; somente o costume alcança alterá-la e refreá-la. Àquele que busca vencer a sua própria índole não se deve propor tarefas nem muito grandes nem muito pequenas; as primeiras torná-lo-ão desalentado ante os sucessivos fracassos; as outras, devido às repetidas vitórias, torná-lo-ão convencido. A princípio, deve-se adestrar com auxílios, como o fazem os nadadores com bexigas ou cortiças; mas ao cabo de certo tempo, é mister se adestre com desvantagens, como os dançarinos com sapatos pesados. Chega-se a grande perfeição quando a prática é mais árdua do que o uso. Quando a índole é pujante e, por consequência, difícil de vencer, o primeiro passo será resistir-lhe e deter-lhe os ímpetos a tempo, a exemplo daquele que, quando estava irado, repetia as vinte e quatro letras do alfabeto; em seguida, racioná-la em quantidade, como o que, proibido de beber vinho, passou dos repetidos brindes a um trago nas refeições; por fim, anulá-la de todo.

Não erra o antigo preceito em recomendar que, para endireitar a índole, se a encurve até ao extremo contrário, contanto que este não seja vicioso. Ninguém deve impingir a si mesmo um hábito com perpétua continuidade, mas sim com alguma intermitência. A pausa reforça a nova arremetida, e se alguém que não seja perfeito estiver sempre em adestramento, exercitará tanto os seus erros quanto as suas habilidades, convertendo ambos em hábitos; e não há outra maneira de evitar isso senão mediante intermitências regulares. Que ninguém confie excessivamente na vitória que alcançou sobre a sua própria índole, pois esta pode permanecer soterrada por longo tempo e, contudo, reviver conforme a ocasião ou tentação.
(...) Por isso, é mister, ou evitar inteiramente a ocasião, ou expor-se-lhe frequentemente, de modo a alcançar ser pouco movido por ela. A índole de um homem é melhor percebida na intimidade, quando não há afectação; na paixão, que o faz desbordar dos seus preceitos; ou no curso de algum novo caso ou experimento, pois então o costume o deserta.
(...) Nos estudos, seja o que for que um homem imponha a si mesmo, cumpre-lhe estabelecer horas certas para eles; mas no que for agradável à sua índole, não se deve preocupar com horas determinadas, pois os seus pensamentos voarão para lá por si mesmos, de modo que lhe bastará estabelecer horário apenas para as demais ocupações ou estudos.

Francis Bacon, in "Ensaios Civis e Morais"

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Foto - Azenhas do Mar

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Humor - O Fim

3 comentários:

Arame Farpado disse...

Este artigo é muito interessante.
À laia de bricandeira, que não é, garanto-lhe, "chico espertismo", devo dizer-lhe que também, embora não só, por ser domingo, a ociosidade da minha índole afigura-se como barreira intransponível.
Vou virar-me para o outro lado.
Ufa, canseira.
Um abraço, meu caro!
Bom domingo.

Anónimo disse...

A boa e a má índole só se evidencia em determinadas situações, há que saber esperar e observar.
Bjos da Sílvia

Metalurgia das letras disse...

Que bom seria? Conhecemos os homens antes de legar-lhes o poder. “Prefiro as azenhas do mar que o cabresto da morte”