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segunda-feira, outubro 02, 2017

A TEIMOSIA NA POLÍTICA



Há políticos que gostam de cultivar a sua teimosia, julgando que com isso mostram determinação e coerência, não conseguindo adaptar-se aos tempos e às situações, que na política são bastante voláteis, como se sabe.

Entre o cata-vento puro e o político que se vai adaptando às situações vai uma grande distância, já entre a teimosia pura e a burrice é apenas um pequeno passo.

Em Portugal temos assistido às teimosias de Passos Coelho que o têm levado, e ao seu partido, a enterrar-se e enredar-se cada vez mais nas suas palavras e nas suas asneiras. Na Espanha vemos um Rajoy que exibe uma grande falta de jeito para o cargo, e uma teimosia perigosa, que conseguiu transformar um referendo que podia ser sempre contestado em termos legais numa vitória dos independentistas.

Políticos desta natureza são um perigo para qualquer Democracia e podem ser responsáveis pela insegurança, pelo radicalismo e até por actos desesperados por parte de indivíduo ou indivíduos mais instáveis.


sexta-feira, abril 12, 2013

OS CONVENCIDOS DA VIDA

Todos os dias os encontro. Evito-os. Às vezes sou obrigado a escutá-los, a dialogar com eles. Já não me confrangem. Contam-me vitórias. Querem vencer, querem, convencidos, convencer. Vençam lá, à vontade. Sobretudo, vençam sem me chatear.
 
Mas também os aturo por escrito. No livro, no jornal. Romancistas, poetas, ensaístas, críticos (de cinema, meu Deus, de cinema!). Será que voltaram os polígrafos? Voltaram, pois, e em força.
 
Convencidos da vida há-os, afinal, por toda a parte, em todos (e por todos) os meios. Eles estão convictos da sua excelência, da excelência das suas obras e manobras (as obras justificam as manobras), de que podem ser, se ainda não são, os melhores, os mais em vista.
 
Praticam, uns com os outros, nada de genuinamente indecente: apenas um espelhismo lisonjeador. Além de espectadores, o convencido precisa de irmãos-em-convencimento. Isolado, através de quem poderia continuar a convencer-se, a propagar-se?(...) No corre-que-corre, o convencido da vida não é um vaidoso à toa. Ele é o vaidoso que quer extrair da sua vaidade, que nunca é gratuita, todo o rendimento possível. 

Nos negócios, na política, no jornalismo, nas letras, nas artes. É tão capaz de aceitar uma condecoração como de rejeitá-la. Depende do que, na circunstância, ele julgar que lhe será mais útil.
 
Para quem o sabe observar, para quem tem a pachorra de lhe seguir a trajectória, o convencido da vida farta-se de cometer «gaffes». Não importa: o caminho é em frente e para cima. A pior das «gaffes», além daquelas, apenas formais, que decorrem da sua ignorância de certos sinais ou etiquetas de casta, de classe, e que o inculcam como um arrivista, um «parvenu», a pior das «gaffes» é o convencido da vida julgar-se mais hábil manobrador do que qualquer outro.
 
Daí que não seja tão raro como isso ver um convencido da vida fazer plof e descer, liquidado, para as profundas. Se tiver raça, pôr-se-á, imediatamente, a «refaire surface». Cá chegado, ei-lo a retomar, metamorfoseado ou não, o seu propósito de se convencer da vida - da sua, claro - para de novo ser, com toda a plenitude, o convencido da vida que, afinal... sempre foi.

Alexandre O'Neill