segunda-feira, outubro 12, 2015

AUTORRETRATO

O’Neill (Alexandre). Moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui uma pequena frase censurada…).
No amor? No amor crê (ou não fosse ele
O’Neill)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
Mas sofre de ternura, bebe demais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse…


Alexandre O’Neill


sexta-feira, outubro 09, 2015

CAVACO E A CONSTITUIÇÃO



Não sou apoiante de Cavaco Silva e não votei nele para a Presidência da República, contudo acho que posso exigir, enquanto cidadão, que ele cumpra o seu dever enquanto presidente, e isso é o mínimo que dele se poderia esperar.

O mandato foi pautado por um apoio descarado ao executivo da sua cor partidária, mas depois das eleições as coisas pioraram. Com o apuramento final dos votos ainda por fazer e sem consultar todos os partidos, resolveu chamar Passos Coelho para a formação do futuro governo.

As formalidades são importantes, e sempre foram respeitadas por todos os ocupantes do Palácio de Belém e era de esperar-se igual procedimento por parte do actual inquilino. Não se espera dum presidente tanta falta de consideração pelo voto popular.

O garante da Constituição é por definição, o presidente da República, mas eis que Cavaco vem, em final de mandato “sugerir” uma revisão da mesma, coisa que lhe não compete, evidentemente, pelo menos enquanto titular deste cargo.

Até à sua substituição Cavaco Silva não é um mero cidadão, que possa ter estados de alma e que se dedique a dar opiniões públicas sobre matéria que são da responsabilidade da Assembleia da República. Não me parece que o presidente actual tenha prestigiado o órgão de soberania que representa.



segunda-feira, outubro 05, 2015

DOMINGO DE ELEIÇÕES



Neste domingo fui dar uma volta com uns amigos que estão no estrangeiro, para onde foram para conseguir ganhar a vida que por cá estava difícil por motivo de desemprego, e escolhemos Belém para passar o dia, que apresentava um aspecto bastante tristonho e cinzento.

A primeira paragem foi perto dos Jerónimos, onde não fomos porque a fila à entrada era monumental, porque as entradas eram gratuitas, penso eu. Como recurso lá rumámos para o Palácio da Ajuda, este muito vazio, mesmo com as entradas grátis. A visita correu satisfatoriamente, e segundo os meus amigos, o palácio é mais bonito por dentro que a Pena ou Queluz.

Descemos novamente para Belém e fomos passear pela feira de velharias, no jardim fronteiro ao mosteiro, onde pude comprar uns postais antigos para a minha colecção. Por conselho dum amigo fui comer um cozido à portuguesa num restaurante da zona, que estava uma delícia.

Com algum tempo ainda livre, fomos ao novo Museu dos Coches, que os meus amigos não conheciam. A visita começou bem, e reparei que estava bastante gente lá. À saída assisti à explicação duma funcionária que se desdobrava em desculpas por estarem avariados os dois elevadores que umas pessoas de idade procuravam. A avaria, segundo percebi, até nem acontece pela primeira vez, e não tem solução rápida, pois um dos aparelhos já estava avariado há dois dias.
 
Bem sei que as entradas eram grátis, e que era o dia das eleições legislativas, mas nada disso desculpa o desleixo e a falta cuidado na elaboração do projecto deste edifício que é um espaço aberto ao público.  

sábado, outubro 03, 2015

JOSÉ VILHENA

Soubemos hoje da morte de José Vilhena, cuja obra deliciou uma geração, não só pela charge política mas também pelas caricaturas atrevidas com que soube retratar a nossa sociedade.

A ousadia de Vilhena valeu-lhe ser muitas vezes alvo de censura, e mesmo de prisão.

Este cartoon é muito actual, basta apenas substituir dois personagens pelos candidatos que se acham mais capazes de obter uma maioria dos votos nestas próximas eleições.

domingo, setembro 27, 2015

É PRECISO MUITO DESCARAMENTO

Passos Coelho já demonstrou ser um político capaz de dar o dito por não dito, de mentir sucessivamente para atingir os seus intentos, e de enganar o povo para ficar no poder, e nada como a ponta final duma campanha eleitoral para fazer vir à tona essas suas “qualidades”.

Quando se candidatou nas últimas eleições legislativas todos se lembram de que afirmou enfaticamente que não iria cortar os subsídios de Natal e de férias, o que não o impediu de o fazer logo que foi eleito. O mesmo aconteceu com as pensões, com o aumento de impostos e de taxas, espremendo todos aqueles que vivem do seu trabalho ou de pensões resultantes de muitos anos de trabalho.


Já na recta final desta campanha, ei-lo de volta às promessas vãs, aos pensionistas e funcionários públicos, dizendo “com humildade” que lhes irá dar prioridade na próxima legislatura. Espremendo esta sua afirmação e confrontando o 1º ministro com o que se conhece do seu programa, ficamos com uma mão cheia de nada, porque não se conhece nenhuma medida programática que seja dirigida a estes dois grupos.


sexta-feira, setembro 25, 2015

A PROSPERIDADE NACIONAL

Os dados do INE confirmam que a poupança dos portugueses atingiu um dos níveis mais baixos de sempre, o que fez soar alarmes no ministério das Finanças.

Neste momento gastam-se 96% do rendimento disponível, e o consumo sobe com recurso ao crédito bancário, o que torna a balança de pagamentos deficitária, porque se importa mais do que se exporta.

Quem ouvisse o inefável Montenegro na televisão poderia julgar que agora o país está melhor, e que os portugueses também já o sentem.

Os números isolados podem ser ilusórios, mas em conjunto não dão aso a enganos. O consumo aumentou, e a economia avançou, mas isto aconteceu à custa de endividamento, porque os portugueses não têm dinheiro disponível, exactamente porque auferem ordenados demasiado baixos.

O consumo aumentou porque existem bens que têm o seu tempo de vida relativamente curtos, como electrodomésticos, viaturas automóveis, maquinaria, e têm que ser substituídos. Outro factor do aumento do consumo foi o aumento do turismo, que naturalmente aumenta o consumo, ainda que não seja feito por nacionais.


Como poupar se não há rendimento disponível depois de serem satisfeitas as necessidades prementes duma vida digna? Como haverá poupança por parte dos grandes grupos se os seus domicílios fiscais são em paraísos fiscais, ou noutras praças que não se importam de cobrar menos a empresas que têm os seus negócios noutras paragens? 


quarta-feira, setembro 23, 2015

O RIGOR ALEMÃO É UM MITO

A notícia caiu que nem uma bomba, a VW sabia que estava a fornecer dados errados sobre o valor da poluição dos seus carros, e mesmo depois de chamada à atenção, não corrigiu esse problema. Nos airbags a culpa caiu no fornecedor oriental, bem como o prejuízo, mas agora o problema bateu à porta do fabricante alemão, sempre tão cioso do rigor e da fiabilidade.

Talvez agora a senhora Merkel possa perceber que, à semelhança do que acontece com a VW e a Alemanha, também os portugueses e os gregos, enquanto povos, não foram responsáveis pelas diatribes e má governança dos seus políticos.

segunda-feira, setembro 21, 2015

SINCERAMENTE...

Anda um cidadão a tentar passar um domingo descansado, em família, e gozando os prazeres que Sintra nos pode proporcionar, e eis que tudo pode dar para o torto.

O trânsito para entrar em Sintra está pior do que é habitual num fim-de-semana, e só depois de muito porfiar lá consegui estacionar num local a pagar, naturalmente. A caminho da Piriquita onde não há lugares e onde há fila para comprar os travesseiros.

A partir daqui foi tudo piorou. Cruzei-me com o Portas e lá se me revoltou o estômago. Não bastave aquela visão desagradável, pois também fui "brindado" com uma espera para entrar no Palácio da Vila, onde Passos Coelho e "comandita", onde vislumbrei o secretário de Estado da Cultura, a barrar as escadas de acesso, onde tiraram umas fotos de campanha, e onde é proibido tirar fotos de casamento, sei lá por que carga de água.

Domingo estragado, tanto mais que tive que esperar que aquela gente se fosse embora para poder também eu, partir para outras paragens onde o ar tivesse melhor qualidade.

Foto do sítio da TVI

sábado, setembro 19, 2015

MARCELO "O SONSO"



Marcelo Rebelo de Sousa é um muito provável candidato às eleições para a Presidência da República, e isto pode concluir-se pelo que tem vindo na imprensa e mesmo pelo que ele próprio tem afirmado, ainda que sem se comprometer demasiado.

O professor e comentador de tudo e de mais alguma coisa, mantém a sua tribuna televisiva, semanal, onde analisa o que faz o governo e os seus membros, bem como a oposição, sugerindo de vez em quando que o faz com isenção, salientando que muitas vezes até é incómodo para o PSD.

Não quero discutir a legitimidade do professor quanto à candidatura, nem afirmarei que a manutenção dos comentários é incompatível com a futura candidatura, mas pergunto-me como é que ele, Marcelo Rebelo de Sousa, se pretende apresentar ao eleitorado para ser presidente de todos os portugueses, quando poucos meses antes desse escrutínio, participou activamente na campanha da coligação PSD/CDS para as legislativas.

Cada um é livre de escolher segundo as suas preferências, mas um presidente da República tem que ser isento, e Marcelo escolheu afirmar publicamente de que lado estava, e isso ficou bem claro: ele é um laranjinha dos sete costados.



quinta-feira, setembro 17, 2015

AJUDA RUINOSA À BANCA

Ouvimos da boca de banqueiros, economistas, jornalistas, e de políticos, que os portugueses tinham estado a viver acima das suas possibilidades, e como estes senhores são os que estão sob a luz dos holofotes, a afirmação passou a ser a verdade oficial.

A grande maioria dos portugueses tinha uma vida remediada, uma parte significativa lutava por manter a cabeça fora de água, e uns poucos viviam à grande e à francesa, isto antes da crise e do começo da austeridade imposta por este governo.

Nestes últimos 4 anos as dificuldades aumentaram substancialmente, são mais os que tentam manter a cabeça à tona de água, muitos mais os que vivem com imensas dificuldades para enfrentar as despesas essenciais, muita gente simplesmente está falida, e os que já viviam no bem bom, estão cada vez mais ricos.

O facto mais relevante destes anos de austeridade à moda de Passos Coelho e da troika, é que boa parte do dinheiro de entrou neste país foi para apoiar a banca, e naturalmente para aliviar os seus accionistas, pesando na dívida pública 11%, e ainda ficámos com o fardo do BES por resolver, e uma parte do dinheiro emprestado à banca por devolver, não contando ainda com a fragilidade da banca, que ainda existe, e umas pontas soltas do BPN que ainda não estão solucionadas.


Neste espaço de tempo tivemos muitas privatizações, e mesmo assim a dívida pública aumentou. O dinheiro recebido foi parar portanto aos bancos, e aos credores, e mesmo assim os portugueses foram espremidos com mais impostos, taxas e reduções de direitos, por um governo que se congratula com estes resultados. 

Flores By Palaciano

terça-feira, setembro 15, 2015

MUSEUS E FALTA DE SEGURANÇA



Foi sem surpresa que li a notícia do Jornal i onde a segurança do Museu Nacional dos Coches é arrasada, e onde são expostas algumas das fragilidades mais visíveis para o grande público e, logicamente para a jornalista que escreveu o artigo.


O Museu dos Coches não passava numa inspecção séria feita aos meios físicos dos requisitos indispensáveis para o funcionamento dum equipamento aberto ao grande público. Só o facto do acesso à exposição ser exclusivamente feito por meios mecânicos (dois elevadores), era o bastante para não ter autorização de funcionamento, note-se que as escadas normalmente utilizadas são as de emergência.


Pior do que a insuficiência ou a inadequação de diversos equipamentos, neste e noutros museus, palácios e monumentos, existem outras lacunas pouco conhecidas, mas que fazem perigar a segurança do público destes locais, sendo que o mais grave é a falta de formação do pessoal para situações de emergência, e isso está previsto na lei.


Quando visitamos um museu, um palácio ou monumento, encontramos pessoal que nos encaminha ou vigia os espaços, mas desconhecemos qual o vínculo laboral que têm e qual a formação que lhes foi dada para responder a situações de emergência. Por vezes vemos umas plantas para estas situações, noutras nem isso, mas podem crer que os funcionários, muitos deles contratados a prazo, ou com recibos verdes, ou ainda estagiários, não sabem como responder em situações de emergência.
 
Falar na falta de atenção da ASAE e das inspecções do trabalho no caso destes equipamentos culturais é pouco mais do que uma redundância.