quarta-feira, março 25, 2015

SOBRE UM POEMA



Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.


Herberto Helder



terça-feira, março 24, 2015

MUSEU DOS COCHES



Em Portugal já se conheceram muitos políticos deslumbrados, e quase todos estiveram envolvidos em projectos megalómanos, que custam os olhos da cara e que nunca se sustentarão a si próprios.

Quando falamos de equipamentos culturais, e fizeram-se alguns nos últimos 20 anos, as coisas tomam aspectos que roçam a tragédia, isto apesar do que vemos na imprensa, que nunca contabiliza apenas receitas e custos, como deve ser. Em boa verdade há uma honrosa excepção, que é o Oceanário de Lisboa, que serve para confirmar a regra.

Isto tudo vem a propósito do novo Museu dos Coches, que terá enormes custos de manutenção do edifício, que obrigariam a ter quase um milhão de visitas pagantes/ano para cobrir os custos de funcionamento, o que dificilmente acontecerá nos próximos 5 anos.

A vaidade de muitos governantes é um fardo que todos suportaremos com os impostos que nos vão sufocando. O novo museu foi um erro, e não há como voltar atrás.


terça-feira, março 17, 2015

CIDADANIA



É frequente ouvir da boca de muitos cidadãos que o governo em funções não presta, que não sabe o que anda a fazer, ou que apenas defende os interesses de uns quantos prejudicando os restantes.

Por norma, quase metade dos que refilam em privado, ou em conversas de café, são os mesmos que não votam, argumentando que não vale a pena ou que se estão lixando para a política. Também é verdade que grande parte dos que abdicam do seu direito de votar, também se recusam a integrar manifestações de protesto, ou a fazer uma greve.

Se os cidadãos querem ser consequentes, quando reclamam das acções dos eleitos, então também têm que exercer os seus direitos, fazendo ouvir a sua voz e manifestando nas urnas o que pensam que seria melhor para eles e para o país.

Pensamento:

“O mundo não está ameaçado pelas pessoas más, e sim por aquelas que permitem a maldade.”

Albert Einstein



domingo, março 15, 2015

CHICO ESPERTISMO ALEMÃO



A Alemanha tem sido “vendida” como um país onde se cumprem as leis, onde todos têm um grande espírito cívico e o respeito pela dignidade humana é uma regra absoluta.

Ao contrário do que nos andaram a “vender”, lá como cá, existem muitos empresários que não passam de chicos espertos, que aproveitam todas as oportunidades possíveis e imaginárias, para fintar as leis e explorar o seu semelhante, o máximo possível.

Um dos títulos que me chamou a atenção no sábado, foi o que dizia que “empresas alemãs estão a arranjar formas criativas de fintar salário mínimo”.

Para os que reverenciam o espírito teutónico, onde não me incluo, digo que na Alemanha há matadouros a cobrar a utilização das facas aos empregados, há quem ofereça talões de descontos em solários, outros a cobrar por fardas que são obrigatórias no trabalho, e até pagamentos parciais em pão feitos a padeiros, em vez de dinheiro.

O país das virtudes para Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque, entre outros, afinal também é fértil em chicos espertos, bastante mais criativos do que os portugueses. Espera-se que os nossos empresários não sigam o exemplo execrável dos conterrâneos da Merkel.  



sexta-feira, março 13, 2015

CITAÇÕES E VERGONHA

"Se há quem se ponha fora das suas obrigações para com a sociedade, tendo muito ou pouco, esse alguém está a ser um ónus importante para todos os outros que têm um fardo maior..."

Passos Coelho
 
Um homem é tão mais respeitável quanto mais numerosas são as coisas das quais se envergonha. 

Bernard Shaw 

quarta-feira, março 11, 2015

GESTÃO PRESSIONANTE

Em todos os manuais de gestão podemos ler que um trabalhador motivado é mais produtivo, o que é uma evidência, mas as coisas não são exactamente assim em Portugal pelo menos em algumas empresas.

Com as teorias económicas de maximizar os recursos, com os prémios de gestão apenas para chefias, com a precarização do emprego, tudo mudou radicalmente.

Os trabalhadores passaram a chamar-se colaboradores, os salários foram “renegociados”, a total disponibilidade foi imposta, as obrigações são frequentemente lembradas, e quem invoca direitos é invariavelmente “advertido”.

Prevalece a doutrina do punho de ferro, da instabilidade, do medo, e da pressão constante, que muito julgam poder dar bons resultados. Os descontentes são, primeiro ameaçados e depois despedidos, pois a substituição regra geral diminui os encargos salariais, e é um sinal para os restantes “colaboradores”.

Estas chefias conseguem, numa primeira fase alguns resultados, e prémios, mas depois as coisas estagnam ou pioram, e “as culpas” são sempre dos “colaboradores que são calões” e duns quantos agitadores que até recorreram alguma vez aos sindicatos.


Infelizmente temos por aí gestores e empresários que gostam destas metodologias, e há governos que fecham os olhos a estas situações de repressão e de pressões psicológicas sobre os trabalhadores.

Não devemos generalizar, mas que há muitos assim, isso há...

segunda-feira, março 09, 2015

MOSTEIRO DA BATALHA

O Mosteiro da Batalha é não só um monumento classificado, como também um símbolo da nossa identidade nacional. O interesse pelo nosso Património não é recente e, só por isso, há registos gráficos de outros tempos. 
Duas imagens das Capelas Imperfeitas (ou incompletas), uma é uma gravura existente na Biblioteca Nacional, a outra é um postal antigo cuja origem está bem visível no topo esquerdo.


Portugal tem muitos monumentos e sítios classificados pela Unesco como Património Mundial, o que nos dá muita visibilidade internacional, mas também muita responsabilidade na sua preservação.

sábado, março 07, 2015

ILUSTRAÇÃO DA SEMANA

O líder da bancada parlamentar do PSD, Luís Montenegro, afirmou hoje, no Porto, que “era o que faltava” que o primeiro-ministro se demitisse devido aos incumprimentos que teve perante a Segurança Social.

Depois de Passos Coelho afirmar que não tinha "consciência" de que estava em falta com os seus descontos para a Segurança Social, nos anos subsequentes a ter exercido o cargo de deputado da nação, ficamos falados.
 

sexta-feira, março 06, 2015

INADMISSÍVEL



Um político honesto, e digo propositadamente político, não pode ser relapso e depois pretender justificar-se com erros da administração, esquecimento ou desconhecimento. É claro que fica bem a qualquer pessoa reconhecer os seus erros, mas Passos Coelho não é uma pessoa qualquer, e só reconhece os seus erros no que se refere a obrigações de cidadania.

Não se pede a nenhum político que seja perfeito, longe disso, mas a política é um exercício de cidadania, e nesse campo exige-se ao político que seja cumpridor. Como poderá um político que não cumpre as suas obrigações para com a sociedade, ter moral para exigir isso a outrem ou até fazer discursos moralistas sobre os incumpridores?

As desculpas de Passos Coelho para as suas trapalhadas sobre a Tecnoforma, sobre os atrasos nas obrigações fiscais, e agora sobre os descontos para a Segurança Social, levam-me à velha frase: «Bem prega frei Tomás, faz o que ele diz e não o que ele faz».



terça-feira, março 03, 2015

PORQUE O POVO DIZ VERDADES

Porque o povo diz verdades,
Tremem de medo os tiranos,
Pressentindo a derrocada
Da grande prisão sem grades
Onde há já milhares de anos
A razão vive enjaulada.

Vem perto o fim do capricho
Dessa nobreza postiça,
Irmã gémea da preguiça,
Mais asquerosa que o lixo.

Já o escravo se convence
A lutar por sua prol
Já sabe que lhe pertence
No mundo um lugar ao sol.

Do céu não se quer lembrar,
Já não se deixa roubar,
Por medo ao tal satanás,
Já não adora bonecos
Que, se os fazem em canecos,
Nem dão estrume capaz.

Mostra-lhe o saber moderno
Que levou a vida inteira
Preso àquela ratoeira
Que há entre o céu e o inferno.


António Aleixo

By Palaciano

domingo, março 01, 2015

ILUSTRAÇÃO DA SEMANA


O ministro da Solidariedade, Emprego e Segurança Social considerou hoje que o primeiro-ministro foi "vítima de erros da própria administração", à semelhança de milhares de portugueses, referindo-se à anterior dívida de Passos Coelho à Segurança Social.

Lusa. 28/02/2015