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quinta-feira, dezembro 13, 2012

ESPÍRITO DE NATAL

 POEMA DE NATAL
Vinícius de morais

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.



domingo, dezembro 02, 2012

DINHEIRO

Quem quiser ter filhos que doire primeiro
A jarra onde, inteira, caiba alguma flor!
Ai dos que têm filhos, mas não têm herdeiro!
— Dinheiro! Dinheiro!
Ó canção de Amor!

As noivas sorriem, talvez, aos vinte anos.
Os amantes sonham... Sonho passageiro!
Música de estrelas: Ética de enganos;
Ilusões, perdidas depois dos vinte anos..
E logo outras nascem: Dinheiro! Dinheiro!

Teus pais, teus irmãos e tua mulher
Cercarão teu leito de herói derradeiro
(Ai de quem, ouvindo-os, nada lhes trouxer!)
E hão-de ali pedir-te o que o mundo quer:
— Dinheiro! Dinheiro!

Deixa-lhes os versos que um dia fizeste,
Amarrado ao lodo, porém verdadeiro.
E eles te dirão: — Pássaro celeste,
Morreste? Morrendo, que bem que fizeste!

Ó canção de amor!
Dinheiro! Dinheiro!

Pedro Homem de Mello


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Beleza

sábado, outubro 20, 2012

A UMA OVELHA



Entre as meigas ovelhas pobrezinhas
Que eu guardo pelos montes, uma existe
Que anda longe, balindo, sempre triste
E vive só das ervas mais sequinhas.
Que pressentes na alma? Que adivinhas?
Etérea voz de dor acaso ouviste?
Que foi que tu nas nuvens descobriste?
Não és irmã das outras ovelhinhas!
Sobes às altas fragas inclinadas,
E comtemplas o sol que desfalece
E as primeiras estrelas acordadas…
E assim ficas a olhar o céu profundo;
Faminta de relva que enverdece
Os outeiros e os vales do Outro Mundo.

Teixeira de Pascoais



terça-feira, julho 31, 2012

DIFICULDADE DE GOVERNAR

1.
Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.

2.

E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

3.

Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4.

Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?


Bertolt Brecht


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Humor e Bonecos
 
*

sexta-feira, julho 20, 2012

O VELHO E A FLOR

Por céus e mares eu andei, 
Vi um poeta e vi um rei 
Na esperança de saber 
O que é o amor. 

Ninguém sabia me dizer, 
Eu já queria até morrer 
Quando um velhinho 
Com uma flor assim falou: 

O amor é o carinho, 
É o espinho que não se vê em cada flor. 
É a vida quando 
Chega sangrando aberta 
em pétalas de amor. 

Vinícius de Moraes


sexta-feira, julho 13, 2012

BREVE POEMA ÉPICO

Sete leões e o profeta no meio,
com óculos, de preto, guarda chuva
e uma saudade desbotada
no bolso do coração.

O céu triste e calado como os mortos;
as colinas à espera de pintor
e o rio como um doido a bater palmas
e a babar-se nas fragas.

Sete leões da terra de ninguém
todos goelas  força e sede viva.
O profeta no meio, tão profeta
que o medo lhe parecia Anjo da Guarda.

Magro, pois a comida de palavras
nunca foi coisa que matasse a fome...
corpo talhado a jeito de baínha
ao espírito - uma espada feita de ar.

Sete leões como os sete pecados,
ali, inteiros, no Jardim de Deus;
as portas milenárias em pedaços
e o Todo-Alma a estuar de fé.

A cada uivo – um murmuro versículo;
para o raspar das unhas as mãos juntas
e aos saltos decisivos como raios,
um - Satan, vade retro! e o guarda-chuva!

Depois... tudo acabou na digestão
do profeta, do rio e até do céu!
Mas um poeta virá com outros sóis
para ver nascer flores dos cadáveres dos leões.

Coimbra – 1943

In “Sete Luas”
Editorial Inquérito Lda.

António de Sousa
1898 – 1981

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Pinturas de Goya 


terça-feira, junho 12, 2012

PALAVRAS DE UM FAISÃO

Perdi-me d'amor! 

É uma pomba muito azul - 
Um azul cor de céu quando há sol; 
E hei-de fugir com ela 
Por causa dum rouxinol ciumento 
Que me apoquenta 
Dizendo Melodias de ironia penetrante. 
Iremos A esse país nevoento, 
Lendário, belo, distante, 
Lá onde a Lua se esconde 
Em névoas que eternamente lá pairam... 

Ó névoa, porque envolveis 
O país de Lord Byron? 

Às vezes 
Penso num pajem que me teve 
E num rei que me beijava 
Quando a Rainha dormia... 
Mas quando lho disseram 
Bateu-me tanto 
Que eu em longos ais morria... 

Não ouvem?... 

 Lá continua 
De novo 
O rouxinol a dizer... 
Ai, mas, se houver 
Uma pequena verdade 
No que ele insinua - 
É lume caindo numa ferida - 
Jamais aqui voltarei. 

Num lago da velha Escócia 
Darei fim à minha vida. 

António Botto

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Foto - Papoilas
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Humor e Critérios
Austeridade à la carte

segunda-feira, maio 14, 2012

TENHO PENA E NÃO RESPONDO

 
Tenho pena e não respondo.
Mas não tenho culpa enfim
De que em mim não correspondo
Ao outro que amaste em mim.

Cada um é muita gente.
Para mim sou quem me penso,
Para outros --- cada um sente
O que julga, e é um erro imenso.

Ah, deixem-me sossegar.
Não me sonhem nem me outrem.
Se eu não me quero encontrar,
Quererei que outros me encontrem?

                  Fernando Pessoa
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Foto - Solo

sábado, março 10, 2012

O DINHEIRO

O dinheiro é tão bonito,
Tão bonito, o maganão!
Tem tanta graça, o maldito,
Tem tanto chiste, o ladrão!
O falar, fala de um modo...
Todo ele, aquele todo...
E elas acham-no tão guapo!
Velhinha ou moça que veja,
Por mais esquiva que seja,
Tlim!
Papo.

E a cegueira da justiça
Como ele a tira num ai!
Sem lhe tocar com a pinça;
E só dizer-lhe: «Aí vai...»
Operação melindrosa,
Que não é lá qualquer coisa;
Catarata, tome conta!
Pois não faz mais do que isto,
Diz-me um juiz que o tem visto:
Tlim!
Pronta.

Nessas espécies de exames
Que a gente faz em rapaz,
São milagres aos enxames
O que aquele demo faz!
Sem saber nem patavina
De gramática latina,
Quer-se um rapaz dali fora?
Vai ele com tais falinhas,
Tais gaifonas, tais coisinhas...
Tlim!
Ora...

Aquela fisionomia
É lábia que o demo tem!
Mas numa secretaria
Aí é que é vê-lo bem!
Quando ele de grande gala,
Entra o ministro na sala,
Aproveita a ocasião:
«Conhece este amigo antigo?»
— Oh, meu tão antigo amigo!
(Tlim!)
Pois não!

João de Deus, in 'Campo de Flores'