domingo, março 19, 2017

A DERROCADA NOS JERÓNIMOS

"Um triste acontecimento commoveu ha poucos dias Lisboa e o resto do paiz. Abateu o corpo central da nova galeria em construcção junto ao magnifico templo dos Jeronymos, e que constituindo a frente da Casa Pia, estava a ponto de concluir-se depois de longos annos de trabalhos e de muitos capitaes dispendidos, devendo então, com o monumento que recorda os nossos feitos passados, constituir um todo harmonico, especimen d'essa architectura maravilhosa que hoje asignala a gloriosa epocha de D. Manuel I, d'onde tirou o nome.

O desmoronamento teve logar no dia 18 de dezembro pelas 9 horas da manhã, e do altivo torreão que já se elevava aos ares perto talvez de trinta metros, apenas resta hoje de pé, quasi intacto felizmente, o corpo inferior, como a nossa gravura o representa, salvando-se a varanda gothica, de admiravel desenho, e o portico ligeiramente damnificado. Poucos dias antes fôra collocada no nicho superior á primeira varanda, uma magnifica estatua da Caridade, cinzelada pelo distincto esculptor Simões de Almeida, e essa mesma teve a cabeça decepada.

N'este desastre houve sobretudo a lamentar a morte de oito vidas. Oito dos trabalhadores que lidavam na obra, não podendo fugir a tempo, foram colhidos pela derrocada, ficando soterrados n'aquella pesada mole de areia e de cantaria...Lamenta-se que, depois de oito vidas de pobres trabalhadores, se hajam perdido com o desastre centenas de contos de réis, quando era talvez melhor ter deixado de os empregar de semelhante fôrma. Em todo o caso o que seria hoje um absurdo maior era reedificar o torreão derrocado pelo plano primitivo. Não pode ser: é preciso que a opinião dos homens competentes intervenha e que o edificio levantado ao lado dos Jeronymos mostre ao menos que no nosso tempo ainda se comprehende a harmonia architectonica d'aquelle magnifico templo."

in O Ocidente : revista ilustrada de Portugal e do estrangeiro, N.º 25 ( 1 Jan. 1879) 


Gravura anterior à derrocada

Gravura depois da derrocada

Fotografia depois da derrocada

1 comentário:

Elvira Carvalho disse...

A primeira vez que ouvi falar dessa derrocada, foi há uns dez anos num mail que Também tinha essa foto.
Um abraço e bom fim de semana