sábado, dezembro 16, 2017

SURREALISMO EM IMAGENS

Há quem tenha arte para nos mostrar o que não é comum e que nunca nos passou pela cabeça. Com uma máquina fotográfica na mão e muita inspiração é isso que faz Ben Zank, um artista que fiquei a conhecer através dum artigo no The Guardian, por causa duma exposição em que participou.

Sem Título by Ben Zank 

Alter ego by Ben Zank

quinta-feira, dezembro 14, 2017

O PATRIMÓNIO E AS MÁS NOTÍCIAS



Nos últimos meses o Património (museus, palácios e monumentos) só tem sido falado por más razões, o que só pode significar que as coisas não estão a correr bem.

O mau uso de monumentos, quer durante o horário de funcionamento (Jerónimos), quer durante cedências de espaços (Ajuda, Panteão, e Convento de Cristo), foi noticiado e comentado por todo o lado, e isso não é propriamente boa publicidade.

Outras notícias têm vindo a público, devido a más condições de conservação como sejam as referentes ao Templo Romano de Évora e agora do Convento de Cristo.

Já sei que para alguns serão apenas casos pontuais, e algumas condições extremas, mas ficará sempre a dúvida. O que acontecerá se alguém se lembrar de mandar verificar se o Palácio de Mafra reúne condições de segurança para visitantes e trabalhadores, devido à avançada degradação dos apoios dos sinos dos dois carrilhões?

A falta de recursos não pode ser a explicação para tudo, porque se algum dia se registarem vítimas e estragos de grande monta, todos quererão saber quem foram os responsáveis, e será a confusão total, tantos foram os silêncios e os que olharam para o lado…
 



sábado, dezembro 09, 2017

CITAÇÃO DA SEMANA

"Quando alguém se torna director de museu gosta de pensar essencialmente no estatuto. Tendo estas funções, prefiro ver-me como curadora porque é isso que me fascina e me estimula a trabalhar. Se tivesse de escolher uma palavra para descrever a minha profissão, seria curadora, não directora. É muito fácil um diretor perder de vista a própria arte. Ser curadora significa estar mais perto da arte, na maneira de a ver, pensar e entender. Gosto de partilhar este interesse comum pela arte, fascina-me estar com os artistas, entender o trabalho deles, visitar exposições e perceber porque é que algumas funcionam e outras não.”

Penelope Curtis in Observador

quinta-feira, dezembro 07, 2017

PATRIMÓNIO E COMPORTAMENTOS



Nas últimas semanas muito se tem falado dos maus comportamentos de alguns visitantes nos nossos museus e monumentos, e invariavelmente as discussões são muito acesas e as propostas são muito poucas.

A segurança do nosso Património depende de vários factores, alguns que são da responsabilidade dos museus e monumentos, e outros que dependem única e exclusivamente da educação e do civismo do público.

Dentro de cada museu ou monumento é necessário muito diálogo entre as equipas técnicas responsáveis pela exposição, e os vigilantes que conhecem melhor que ninguém o tipo de público que cada serviço recebe, e quais a dificuldades que enfrentam no seu dia-a-dia. A consulta de especialistas em segurança e respectivos equipamentos, e a troca de experiências com pessoal de outras instituições similares de referência, também são recomendadas.

Fora de portas também há muito que pode ser feito, desde logo nas escolas, que são parceiros privilegiados na formação de públicos. O Ministério da Cultura pode também fazer mais aproveitando sinergias de outros sectores que tutela, podendo fazer, por exemplo, pequenos sketches humorísticos (sempre melhor aceites), sobre comportamentos pouco recomendáveis dentro de museus e monumentos, a exibir em separadores da televisão pública em horário nobre.

É preciso semear para depois colher… 



segunda-feira, dezembro 04, 2017

FANATISMO RELIGIOSO

Na sequência da expulsão dos judeus de Portugal, por decreto de 5 de Dezembro de 1496, só lhes restavam duas opções, sendo a mais óbvia a fuga, e depois a conversão proposta por D. Manuel para se evitar a fuga de capitais do país.

A opção da conversão, em muito facilitada por D. Manuel que tentou proteger ao máximo os cristãos-novos, tentando a sua integração na sociedade portuguesa, encontrou dois obstáculos, o primeiro a resistência natural dos judeus, e outro mais perigoso, que era a intolerância religiosa.

A 19 de Abril de 1506, domingo de Pascoela, e segundo Damião de Góis, os cristãos-velhos reunidos na Igreja de S. Domingos, à espera de um milagre anunciado, terão visto uma luz a brilhar no cruxifixo da igreja, mas houve uma pessoa que terá dito tratar-se dum reflexo das candeias acesas na igreja. Tratava-se de um cristão-novo, o que para a populaça significava que era um judeu, pelo que foi arrastado pela rua e queimado no Rossio, bem como o irmão que teria vindo em seu socorro.

Um frade dominicano fez um discurso contra os judeus, logo secundado por dois frades, Frei João Mocho e Frei Bernardo, que gritaram “Heresia! Heresia! Destruam o povo abominável!” e incendiaram os ânimos da populaça.


A isto seguiu-se um massacre, e a turba arrombava as portas, em busca de cristãos-novos, violando e matando milhares de pessoas (António Borges Coelho), e carregaram mortos e vivos para fogueiras ateadas no Rossio e na zona ribeirinha. A matança e a pilhagem duraram 3 dias seguidos. 



Uma das duas únicas gravuras sobreviventes ao Terramoto de Lisboa 1755 e ao incêndio da Torre do Tombo: “Da Contenda Cristã, que recentemente teve lugar em Lisboa, capital de Portugal, entre cristãos e cristãos-novos ou judeus, por causa do Deus Crucificado”

sábado, dezembro 02, 2017

O PATRIMÓNIO E AS SUAS POLÉMICAS



Já nos recompusemos do caso do jantar (de mau gosto) no Panteão Nacional, e do jantar (superpovoado) no Palácio da Ajuda, e eis que aparecem mais alguns casos que nos fazem recordar tudo.

As obras em curso no exterior do Palácio da Ajuda, com vista ao fecho do edifício que servirá de museu da jóias da coroa, parece que não aparentam grande segurança, e já houve quem as pusesse em causa, exactamente por motivos de segurança. Pelo que li os cidadãos que acham que o palácio pode estar em perigo, pedem agora ao 1º ministro uma avaliação urgente e independente, a realizar pelo Laboratório de Engenharia Civil.

Por outras paragens, mais precisamente em Alcobaça, existe um conflito latente entre a direcção do Mosteiro, a DGPC, e a paróquia, estando em causa a colocação duma porta de vidro numa capela. Este conflito entre os responsáveis do Património e a Igreja é sempre possível nos monumentos classificados e abertos ao público, onde a paróquia local pretende continuar a fazer o seu culto e a ter a devida privacidade, ainda que não queira assumir responsabilidades na conservação da igreja e de outros espaços de apoio ao culto. É o delicado problema das relações entre o Estado e a Igreja, que não é fácil de resolver.

Já agora, e só porque se falou de garantir a segurança do Palácio da Ajuda, talvez venha a propósito falar-se das condições de segurança do Palácio de Mafra, atendendo ao (mau) estado em que estão os suportes dos sinos das duas torres que ladeiam a Basílica, neste momento (e há vários anos) suportados por andaimes. Existe algum estudo recente, independente, atestando a segurança do edifício, dos visitantes e dos funcionários?



quinta-feira, novembro 30, 2017

PARTIDA DA FAMÍLIA REAL PARA O BRASIL



Passados 210 anos sobre a partida para o Brasil, da realeza portuguesa, importa referir uma exposição que decorre no Museu dos Coches sobre o acontecimento histórico.

Muito se disse sobre o assunto, uns dizendo que foium acto de cobardia, outros preferem recordar que sem esta fuga Portugal deixaria de ser uma nação independente. Nunca saberemos porque a vida não se faz de “ses”.

Talvez seja uma boa oportunidade para citar Oliveira Martins que dizia:

“A onda da invasão varria diante de si o enxame dos parasitas imundos, desembargadores e repentistas, peraltas e sécias, frades e freiras, monsenhores e cadastrados.

Tudo isso, a monte, embarcava, ao romper do dia, no cais de Belém.
Parecia o levantar de uma feira e a mobília de uma barraca suja de saltimbancos falidos: porque o príncipe, para abarrotar o bolso com louras peças de ouro, seu enlevo, ficara a dever a todos os credores, deixando a tropa, os empregos, os criados, por pagar.

Desabava tudo a pedaços; e só agora, finalmente, o terramoto começado pela natureza, continuado pelo marquês de Pombal, se tornava um facto consumado. Os cortesãos corriam pela meia-noite as ruas, ofegantes, batendo às lojas, para comprarem o necessário; as mulheres entrouxavam a roupa e os pós, as banhas, o gesso com que caiavam a cara, o carmim com que pintavam os beiços, as perucas e rabichos, os sapatos e fivelas, toda a frandulagem do vestuário.

(…) O príncipe regente e o infante de Espanha chegaram ao cais na carruagem, sós: ninguém dava por eles; cada qual cuidava de si, e tratava de escapar.

Dois soldados da polícia levaram-nos ao colo para o escaler.

Depois veio noutro coche a princesa Carlota Joaquina, com os filhos.

E por fim a rainha (D. Maria I), de Queluz, a galope. Parecia que o juízo lhe voltava com a crise. Mais devagar!, gritava ao cocheiro; diria que fugimos!

A sua loucura proferia com juízo brados de desespero, altos gritos de raiva, estorcendo-se, debatendo-se às punhadas, com os olhos vermelhos de sangue, a boca cheia de espuma.
O protesto da louca era o único vislumbre de vida. O brio, a força, a dignidade portuguesa acabavam assim nos lábios ardentes de uma rainha doida!
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Tudo o mais era vergonha calada, passiva inépcia, confessada fraqueza.

O príncipe decidira que o embarque se fizesse de noite, por ter a consciência da vergonha da sua fuga; mas a notícia transpirou, e o cais de Belém encheu-se de povo, que apupava os ministros, os desembargadores, toda essa ralé de ineptos figurões de lodo.

E – tanto podem as ideias! – chorava ainda pelo príncipe, que nada lho merecia. D. João também soluçava, e tremiam-lhe muito as pernas que o povo de rastos abraçava.

A esquadra recebera 15 000 pessoas, e valores consideráveis, em dinheiro e alfaias.

Levantou ferro na manhã de 29, pairando em frente da barra até o dia seguinte, às sete horas, que foi quando Junot entrou em Lisboa. Os navios largaram o pano, na volta do mar, e fizeram proa a sudoeste, caminho do Brasil.”