terça-feira, julho 01, 2014

DONA ABASTANÇA

«A caridade é amor» 
Proclama dona Abastança 
Esposa do comendador 
Senhor da alta finança. 

Família necessitada 
A boa senhora acode 
Pouco a uns a outros nada 
«Dar a todos não se pode.» 

Já se deixa ver 
Que não pode ser 
Quem 
O que tem 
Dá a pedir vem. 

O bem da bolsa lhes sai 
E sai caro fazer o bem 
Ela dá ele subtrai 
Fazem como lhes convém 
Ela aos pobres dá uns cobres 
Ele incansável lá vai 
Com o que tira a quem não tem 
Fazendo mais e mais pobres. 

Já se deixa ver 
Que não pode ser 
Dar 
Sem ter 
E ter sem tirar. 

Todo o que milhões furtou 
Sempre ao bem-fazer foi dado 
Pouco custa a quem roubou 
Dar pouco a quem foi roubado. 

Oh engano sempre novo 
De tão estranha caridade 
Feita com dinheiro do povo 
Ao povo desta cidade.
 

Manuel da Fonseca


2 comentários:

Anónimo disse...

Excelente escolha
Bjos da Sílvia

Maria disse...


Que verdade, tão verdadeira!
Que seja sempre lembrado o Poeta.