segunda-feira, fevereiro 27, 2012

INSATISFAÇÃO

Poeminha de Insatisfação Absoluta

O que me dói
É que quando está tudo acabado
Pronto pronto
Não há nada acabado
Nem pronto pronto
Pintou-me a casa toda
Está tudo limpado
O armário fechado
A roupa arrumada
Tudo belo, perfeito.
E no mesmo instante
Em que aperfeiçoamos a perfeição
Uma lasca diminuta, ténue, microscópica,
Não sei onde,
Está começando
Na pintura da casa
E as traças, não sei onde,
Estão batendo asas
E a poeira, em geral, está caindo invisível,
E a ferrugem está comendo não sei quê
E não há jeito de parar.

Millôr Fernandes, in "Pif-Paf"


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Foto - Azul

4 comentários:

Anónimo disse...

Porque o tempo passa e tudo envelhece.
Hoje amenheceu cinzento por aqui.
Bjos da Sílvia

Metalurgia das letras disse...

Há uma entropia insatisfatória absoluta que nos arrassta rumo ao “Pif-Paf” das horas. Angustiante mesmo é saber não podemos aperfeiçoarmos a perfeição. Pois haverá sempre um horizonte cinza para ser limpado...

maceta disse...

de grande oportunidade e a fraqueza estrutural...

cumpts

Daniel Santos disse...

acertado.