sábado, janeiro 28, 2012

O TRIUNFO DOS IMBECIS

Não nos deve surpreender que, a maior parte das vezes, os imbecis triunfem mais no mundo do que os grandes talentos. Enquanto estes têm por vezes de lutar contra si próprios e, como se isso não bastasse, contra todos os medíocres que detestam toda e qualquer forma de superioridade, o imbecil, onde quer que vá, encontra-se entre os seus pares, entre companheiros e irmãos e é, por espírito de corpo instintivo, ajudado e protegido. O estúpido só profere pensamentos vulgares de forma comum, pelo que é imediatamente entendido e aprovado por todos, ao passo que o génio tem o vício terrível de se contrapor às opiniões dominantes e querer subverter, juntamente com o pensamento, a vida da maioria dos outros.

Isto explica por que as obras escritas e realizadas pelos imbecis são tão abundante e solicitamente louvadas - os juízes são, quase na totalidade, do mesmo nível e dos mesmos gostos, pelo que aprovam com entusiasmo as ideias e paixões medíocres, expressas por alguém um pouco menos medíocre do que eles.


Este favor quase universal que acolhe os frutos da imbecilidade instruída e temerária aumenta a sua já copiosa felicidade. A obra do grande, ao invés, só pode ser entendida e admirada pelos seus pares, que são, em todas as gerações, muito poucos, e apenas com o tempo esses poucos conseguem impô-la à apreciação idiota e ovina da maioria. A maior vitória dos néscios consiste em obrigar, com certa frequência, os sábios a actuar e falar deles, quer para levar uma vida mais calma, quer para a salvar nos dias da epidemia aguda da loucura universal.


Giovanni Papini, in 'Relatório Sobre os Homens'


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Desenhos Animados

7 comentários:

São disse...

Parabéns...

e viva a imbecilidade!!

Bom fim de semana

Anónimo disse...

Magníficas escolhas tanto o texto como o filme animado.
Bjos da Sílvia

André Nuno disse...

Muito bem.
Se me permites, do mesmo autor:

" O maior problema do Homem, como das nações, é a independência. Pode ser resolvido?
O que possuo parece meu, mas sou sempre possuído pelo que tenho. A única propriedade indiscutível devia ser o Eu, e, contudo, vendo bem, onde está o resíduo absoluto que não depende de ninguém?
Outros participam, ausentes ou presentes, da nossa vida interior e exterior. Não há forma de se salvar. Mesmo na solidão perfeita, sinto-me, com espanto, átomo de um monte, célula de uma colónia, gota de um mar. Há no meu espírito e na minha carne, a herança dos mortos; o meu pensamento é devedor dos defuntos e dos vivos; a minha conduta é guiada, mesmo contra a minha vontade, por seres que não conheço e que desprezo.
Tudo o que sei aprendi dos outros. Qualquer coisa que adquira é obra de outros, e - que importa que a tenha pago? - sem o operário, sem o artesão, sem o artista, estaria mais nu do que Caliban ou Robinson. Se quero deslocar-me, tenho necessidade de máquinas não fabricadas por mim.
Vejo-me obrigado a falar uma língua que não inventei; e os que vieram antes impõem-me, sem que me aperceba, os seus gostos, os seus sentimentos, os seus preconceitos.
Se desmonto o meu Eu peça a peça, encontro sempre fragmentos que procedem de fora; podia apor, em cada um, uma etiqueta de origem: Isto é de minha mãe, isto do meu primeiro amigo, isto de Emerson, isto de Rousseau, isto de Stirner. Se realizo a fundo o inventário das apropriações, o Eu converte-se numa forma vazia, numa palavra sem sentido próprio.
Pertenço a uma classe, a um povo, a uma raça; não consigo evadir-me, faça o que fizer, de certos limites que não foram traçados por mim. Cada ideia é um eco; cada acto um plágio. Posso tirar os homens da minha presença, mas uma grande parte deles continuará vivendo, invisível, na minha solidão.
Se tenho criados, devo suportá-los e obedecer-lhes; se tenho amigos, tolerá-los e servi-los; e os valores querem ser guardados, cultivados, protegidos, defendidos. Poder equivale a escravidão. Nada, na realidade, me pertence. As poucas alegrias que desfruto devo-as à inspiração e ao trabalho de homens que já não existem ou que nunca vi. Sei o que recebi, mas ignoro quem mo deu. (...)
Onde está, pois, o núcleo profundo e autónomo de que nenhum outro participa, que não foi gerado por nenhum outro e que se possa verdadeiramente chamar meu? Serei, na realidade, um coágulo de dívidas, a molécula escrava de um corpo gigantesco? E a única coisa que acreditamos verdadeiramente nossa - o Eu - talvez seja, como tudo o mais, um simples reflexo, uma alucinação do orgulho."

Giovanni Papini em "Gog"

Um abraço.

Metalurgia das letras disse...

Guardião – Algumas frases sobre o assunto: “Funcionar com uma célula parece fácil, difícil deve ser governar milhões” “Mal dos ativos se não fossem os imbecis”. Para cada individuo inteligente se supõem 1000 imbecis O artista tem que ser gênio para alguns e imbecil para outros. No imbecil, o espírito sopra em sentido contrário." (José Alberto Braga) "Um imbecil pode, por si só, levantar dez vezes mais problemas que dez sábios juntos não conseguiriam resolver." (Lenin) "A imbecilidade é uma rocha inexpugnável: tudo que se choca contra ela se despedaça." (Gustave Flaubert) "Não há melhor escudo para o imbecil do que o erro do homem honrado."
(Alonso de Varros)"Por mais imbecil que você seja, sempre haverá um imbecil maior para achar que você não o é." (Millôr Fernandes) "O imbecil coloca-se na primeira fila, para ser visto; o inteligente coloca-se atrás, para ver." (Carmen Sylva) "A falta de amor é um grau de imbecilidade, porque o amor é a perfeição da consciência." (Rabindranath Tagore) "Jamais chame um amigo de imbecil. É preferível lhe pedir dinheiro emprestado e não pagar." (Millôr Fernandes) "Imbecil é o asno que anda muito carregado e que pretende correr."
(Ramon Llull) "Os imbecis deixam suas impressões digitais no que dizem." (Sofocleto) "Ante tanto imbecil com cartão de opinante, os sábios calam."
(Pepe Rubianes) "Os loucos as vezes se curam, os imbecis nunca." (Oscar Wilde) "Qualquer coisa imbecil demais para ser dita é cantada." (Voltaire) "Existem imbecis superficiais e imbecis profundos." (Karl Kraus) "Deixemos as conclusões para os imbecis." (Pío Baroja) . Ps: desculpe a imbecilidade de tantos imbecis inclusive a minha... quando penso ser alguma coisa...

Zé Marreta disse...

E ainda existe uma categira mais irritante: os imbecis chico-espertos.
Gostei de rever o Pateta pateta.

Saudações.

Zé Marreta disse...

...categoria, quis dizer.

Pata Negra disse...

Agora percebo porque é que o Rei dos Leittões tem tão poucas visitas!
Tu tens mais do que eu!?
Um abraço entre o génio e o imbecil