sábado, novembro 05, 2011

ÁLCOOL

Guilhotinas, pelouros e castelos
Resvalam longemente em procissão;
Volteiam-me crepúsculos amarelos,
Mordidos, doentios de roxidão.


Batem asas de auréola aos meus ouvidos,
Grifam-me sons de cor e de perfumes,
Ferem-me os olhos turbilhões de gumes,
Descem-me a alma, sangram-me os sentidos.


Respiro-me no ar que ao longe vem,
Da luz que me ilumina participo;
Quero reunir-me, e todo me dissipo ---
Luto, estrebucho... Em vão! Silvo pra além...


Corro em volta de mim sem me encontrar...
Tudo oscila e se abate como espuma...
Um disco de oiro surge a voltear...
Fecho os meus olhos com pavor da bruma...


Que droga foi a que me inoculei?
Ópio de inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eternizo?


Nem ópio nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante ---
Manhã tão forte que me anoiteceu.

Mário de Sá-Carneiro

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Humor e Vício

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Foto de Sintra

By Palaciano
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5 comentários:

São disse...

Em primeiro lugar, obrigada pela sua gentil presença no "são".

Mário de Sá-Carneiro, que se suicidou, e de quem aprecio a escrita.

Bons sonhos.

Pata Negra disse...

Alcool?!Nõa qero! Qero a penas fiqar imbriagado! Num qero a realidade! Queru ser rey de outra realidade
Um abrasso emtre copus

Isamar disse...

Um poeta que não resistiu a este mundo sem sentido,sem amor, sem esperança... e não assistiu à hecatombe dos dias por que passamos.

Bem-hajas, amigo!

Abraço fraterno

Zé Marreta disse...

Alccol, o ópio do povo.

Saudações do Zé Marreta.

maceta disse...

esse era um outro Mário...