quinta-feira, outubro 06, 2011

OS POLÍTICOS

Deixo-vos hoje com dois textos sobre a política e sobre os políticos, sobretudo os nacionais. Os textos são de duas pessoas da Cultura e retratam aspectos e áreas diferentes, mas estão actuais e dão-nos uma visão bem verdadeira do que temos ainda hoje.

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Política de Interesse

Em Portugal não há ciência de governar nem há ciência de organizar oposição. Falta igualmente a aptidão, e o engenho, e o bom senso, e a moralidade, nestes dois factos que constituem o movimento político das nações.
A ciência de governar é neste país uma habilidade, uma rotina de acaso, diversamente influenciada pela paixão, pela inveja, pela intriga, pela vaidade, pela frivolidade e pelo interesse.
A política é uma arma, em todos os pontos revolta pelas vontades contraditórias; ali dominam as más paixões; ali luta-se pela avidez do ganho ou pelo gozo da vaidade; ali há a postergação dos princípios e o desprezo dos sentimentos; ali há a abdicação de tudo o que o homem tem na alma de nobre, de generoso, de grande, de racional e de justo; em volta daquela arena enxameiam os aventureiros inteligentes, os grandes vaidosos, os especuladores ásperos; há a tristeza e a miséria; dentro há a corrupção, o patrono, o privilégio. A refrega é dura; combate-se, atraiçoa-se, brada-se, foge-se, destrói-se, corrompe-se. Todos os desperdícios, todas as violências, todas as indignidades se entrechocam ali com dor e com raiva.
À escalada sobem todos os homens inteligentes, nervosos, ambiciosos (...) todos querem penetrar na arena, ambiciosos dos espectáculos cortesãos, ávidos de consideração e de dinheiro, insaciáveis dos gozos da vaidade.



Eça de Queiroz, in 'Distrito de Évora (1867)


A Cultura não se Enquadra na Totalidade Política

A cultura nunca poderá ser um factor estratégico de mudança. Se é estratégia, não é cultura. Faz-se apelo à cultura como estratégia de mudança, tentando resolver a condição perturbadora do homem culto, munido de culpabilidade inconsciente, ou simplesmente isento da culpabilidade pelo sofrimento. Isso não é possível. A cultura não se enquadra na totalidade política. Há um grave mal-entendido quanto a isso. A cultura não significa o conforto da neutralidade, a irónica graduação da expectativa, a ginástica do não-compomisso. Significa um enraizamento em si mesmo, que conserva no homem a faculdade de julgar. Não é contrária à acção, mas é condição necessária para que a acção seja serena e útil, e não impaciente e desordenada. Não se trata de racismo espiritual; não se trata da pretensão de existir à parte da história política do mundo. É a intenção absolutamente necessária de ser livre, face aos acontecimentos, qualquer que seja a lógica que os liga. A cultura é o que identifica um povo com a sua finalidade.


Agustina Bessa-Luís, in 'Dicionário Imperfeito'



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Caricatura - Político

4 comentários:

São disse...

rrrss estupendo, o cartoon e bons , os textos. Saudações

Metalurgia das letras disse...

Por aqui no Brasil
"Um pouco da nossa política"

E quando o grande imperador Calígula”
nomeou senador romano seu cavalo, Incitatus…
E ele discursou:
- Eu prometo nunca mais prometer:
- Um sapato antes das eleições e o outro depois,
- Um poste na rua B, e asfalto na rua C,
- Uma bolsa de estudos para seu filho estudar no Guarujá,
- Uma merenda deliciosa na escola,
- Uma ponte ligando duas comunidades,
- Um túnel super-faturado em São Paulo,
- Carregar dinheiro na cueca,
- Ter contas fantasma em bancos caribenhos,
- Acabar com a miséria no mundo,
- Uma educação de excelência para todos,
- Não perseguir meus inimigos políticos,
- Filiar a um só partido,
- Defender uma só bandeira,
- Não empregar os meus parentes,
- Não usar o cartão de crédito do senado,
- Não cobrar tantos impostos,
- Esquecer a CPMF,
- Abaixar o IPVA,
- Fazer o teste do Tiririca antes das eleições,
- Não governar com mãos de ferro,
- Dar posse somente por concursos públicos,
- Receber somente o salário da função exercida,
- Não desviar as verbas,
- E quando o cavalo terminou o seu discurso, todos o aplaudiram de pé,
Menos um burro, este desconfiado da história foi ler e entender:
a política da sua época…

Abraços fraternos aos irmãos lusitanos

Isamar disse...

Os textos eu já conhecia e não há possibilidade de endireitar o que sempre esteve torto.
Os cartoons estão fabulosos.

Bem-hajas!

Abraço fraterno

maceta disse...

o rigor, a precisão do Eça... e, pelos vistos, esta raça não melhorou mesmo nada...

cpmtos