domingo, novembro 23, 2008

DOMINGO, POESIA ERÓTICA

E eu que era um menino puro
Não fui perder minha infância
No mangue daquela carne!

Dizia que era morena

Sabendo que era mulata

Dizia que era donzela

Nem isso não era ela

Era uma môça que dava.

Deixava... mesmo no mar

Onde se fazia em água

Onde de um peixe que era

Em mil se multiplicava

Onde suas mãos de alga

Sôbre o meu corpo boiavam

Trazendo à tona águas-vivas

Onde antes não tinha nada.

Quanto meus olhos não viram

No céu da areia da praia

Duas estrêlas escuras

Brilhando entre aquelas duas

Nebulosas desmanchadas

E não beberam meus beijos

Aqueles olhos noturnos

Luzindo de luz parada

Na imensa noite da ilha!

Era minha namorada

Primeiro nome de amada

Primeiro chamar de filha

Grande filha de uma vaca!

Como não me seduzia

Como não em alucinava

Como
deixava, fingindo

Fingindo que não deixava!

Aquela noite entre tôdas

Que cica os cajus travavam!

Como era quieto o sossêgo

Cheirando a jasmim-do-Cabo!

Lembro que nem se mexia

O luar esverdeado.

Lembro dos seus anos vinte

Junto aos meus quinze deitados

Sob a luz verde da lua.

Ergueu a saia de um gesto

Por sôbre a perna dobrada

Mordendo a carne da mão

Me olhando sem dizer nada

Enquanto jazente eu via

Como uma anêmona n'água

A coisa que se movia

Ao vento que a farfalhava.

Toquei-lhe a dura pevide

Entre o pêlo que a guardava

Beijando-lhe a coxa fria

Com gôsto de cana-brava.

Senti, à pressão do dedo

Desfazer-se desmanchada

Como um dedal de segrêdo

A pequenina castanha

Gulosa de ser tocada.

Era uma dança morena

Era uma dança mulata

Era o cheiro de amarugem

Era a lua côr de prata

Mas foi só aquela noite!

Passava dando risada

Carregando os peitos loucos

Quem sabe pra quem, quem sabe!

Mas como me perseguia

A negra visão escrava

Daquele feixe de águas

Que sabia ela guardava

No fundo das coxas frias!

Mas como me desbragava

Na areia mole e macia!

A areia me recebia

E eu baixinho me entregava

Com mêdo que Deus ouvisse

Os gemidos que não dava!

Os gemidos que não dava

Por amor do que ela dava

Aos outros de mais idade

Que a carregaram da ilha

Para as ruas da cidade.

Meu grande sonho da infância

Angústia da mocidade
Vinícius de Moraes

6 comentários:

Anónimo disse...

Um homem que conhecia a vida, esse Vinícius que só conhecia da música.
Lol

AnarKa

Sophiamar disse...

Vinícius e o amor. Grande poeta! Grande o amor que ele cantava.

Um abraço

elvira carvalho disse...

Belíssimo poema. E Vinicius bem podia ser apelidado do poeta do amnor.
Um abraço e uma boa semana

Pata Negra disse...

"Ergueu a saia num gesto"
retenho o verso.
olhos fixos no arremesso.
chego-me a mais.
avanço e téso.
terá mar ipanema?
não é oceano.
é poema.
é moraes.
sou o cão que a moça tem.
não ladra de dia.
rio de contente.
também gosta de poesia
o guardião.
uma abraço em dia sim dia não

Tiago R Cardoso disse...

E muito bem.

FERNANDA & POEMAS disse...

Olá querido Amigo, belíssimo poema do grande poeta Vinicius... Obrigada por mo dares a conhecer Amigo, beijinhos de carinho e ternura,
Fernandinha